O Brasil segue como o maior mercado de criptomoedas da América Latina, mas está perdendo velocidade justamente no momento em que seus vizinhos aceleram. É o que mostra o relatório de 2026 sobre adoção de criptomoedas na região, divulgado pela Chainalysis nesta sexta-feira (25). Segundo o levantamento, o país recebeu mais de US$ 252 bilhões (cerca de R$ 1,46 trilhão) em entradas de criptoativos no período analisado, quase três vezes o volume registrado pela Argentina, a segunda colocada. O detalhe que chama atenção é que essa liderança em valor absoluto veio acompanhada de retração frente ao ano anterior.
Enquanto isso, o restante da região compensou com folga: o México cresceu 25,5%, a Argentina 15,3%, a Colômbia 13,8% e a Venezuela surpreendeu com uma alta de 107,2%. O fio condutor por trás de praticamente todo esse crescimento tem nome e sobrenome: stablecoins, as criptomoedas atreladas ao dólar que deixaram de ser apenas ficha de negociação em corretora para virar, cada vez mais, instrumento real de pagamento, poupança em dólar e proteção cambial.
Por que o Brasil desacelerou mesmo liderando
Ficar em primeiro lugar e, ainda assim, ser a notícia de desaceleração pode soar contraditório, mas faz sentido dentro do contexto. O mercado brasileiro já é maduro: existe uma base grande e consolidada de usuários, exchanges regulamentadas operando há anos e um volume histórico elevado, o que naturalmente reduz o espaço para taxas de crescimento explosivas, o chamado “efeito base”. Em mercados como Venezuela e México, o ponto de partida era menor, e qualquer novo fluxo relevante se traduz em percentuais de crescimento muito mais expressivos.
O caso venezuelano é o mais chamativo do relatório. A Chainalysis atribui o salto de 107,2% a um choque político ocorrido em janeiro, quando o líder Nicolás Maduro teria sido detido pelo Exército dos Estados Unidos em solo venezuelano, evento que teria acelerado o uso de infraestrutura cripto já existente no país como alternativa a um sistema bancário local fragilizado. Vale frisar: trata-se de uma leitura atribuída diretamente ao relatório da Chainalysis, sem confirmação independente até o momento desta publicação.
O comparativo regional, país por país
Tabela 1, Adoção de cripto na América Latina (relatório Chainalysis 2026)
| País | Destaque do relatório | Dado principal |
| Brasil | Líder em valor recebido | Mais de US$ 252 bi em entradas, com retração ante o ano anterior |
| México | Hub regional de stablecoins | 81% da atividade cripto local em stablecoins; US$ 1,8 bi/mês (jun/26) |
| Argentina | 2º maior mercado da região | Crescimento de 15,3% no período |
| Colômbia | Crescimento consistente | Alta de 13,8% no período |
| Venezuela | Maior variação percentual | Salto de 107,2%, ligado a evento político de janeiro |
O detalhe que muda a forma como a região usa cripto
Além do ranking por país, um número do relatório resume bem a virada de comportamento na região: hoje, apenas 28,8% dos fundos cripto na América Latina ficam em carteiras de autocustódia, sob controle direto do próprio usuário, sem depender de terceiros. Antes de 2022, essa fatia passava de 50%.
Na prática, isso quer dizer que cada vez mais gente prefere deixar seus ativos digitais em exchanges e bancos digitais, trocando o controle total (e a responsabilidade total) por conveniência: comprar, guardar, converter, transferir e gastar dentro do mesmo aplicativo, sem precisar gerenciar chaves privadas ou correr o risco de perder o acesso à própria carteira. Gabriel Campa, responsável por ativos digitais da Towerbank, resume essa mudança de comportamento como um movimento em que o cliente não quer mais ter a conta bancária de um lado e os ativos digitais de outro, ele quer os dois serviços dentro da mesma relação.
Para quem está começando agora, vale entender o trade-off por trás dessa escolha: autocustódia dá mais controle, mas também mais responsabilidade, perder a chave de acesso pode significar perder os fundos de forma definitiva. Já exchanges e plataformas centralizadas são mais convenientes e, em geral, mais fáceis para iniciantes, mas dependem inteiramente da solidez e da idoneidade da instituição escolhida.
E no Brasil, especificamente, quem está usando o quê
Fora do relatório da Chainalysis, dados oficiais divulgados recentemente pela Receita Federal ajudam a completar o quadro sobre o mercado brasileiro. No primeiro semestre de 2026, o volume de criptoativos declarado no país somou R$ 283,1 bilhões, alta de 21,3% sobre o mesmo período de 2025 e o maior resultado da série histórica iniciada em 2019. Desse total, R$ 199,5 bilhões, ou 76,5% de tudo que foi movimentado, envolveu a stablecoin USDT (Tether), e as exchanges nacionais responderam por 62,8% do volume, com mais de 4 milhões de CPFs únicos participando do mercado mensalmente.
Tabela 2, Brasil em números: 1º semestre de 2026
| Indicador | Valor |
| Volume total declarado | R$ 283,1 bilhões |
| Crescimento vs. 1º sem/2025 | +21,3% |
| Participação da USDT no volume | 76,5% (R$ 199,5 bi) |
| Participação de exchanges nacionais | 62,8% (R$ 177,6 bi) |
| CPFs únicos participando por mês | Mais de 4 milhões |
Fonte: Receita Federal, dados compilados pelo BPMoney.
Juntando os dois retratos, o regional da Chainalysis e o nacional da Receita Federal —, a conclusão é a mesma sob dois ângulos diferentes: o Brasil segue como o maior mercado cripto absoluto da região, mas o motor real desse mercado, tanto aqui quanto nos vizinhos, já não é mais a especulação com Bitcoin ou altcoins. É a stablecoin, usada como uma espécie de dólar digital de bolso.
O que isso muda para quem está começando a investir
- Entender que “cripto”, hoje, é sinônimo de stablecoin para a maioria dos usuários latino-americanos, antes de comprar Bitcoin ou uma altcoin, vale entender o que é uma stablecoin e por que ela é usada de forma tão diferente
- Verificar sempre se a exchange escolhida é regulamentada e autorizada a operar no Brasil, já que a migração para plataformas centralizadas aumenta a dependência da idoneidade dessas empresas
- Pesquisar a fundo antes de decidir entre autocustódia (carteira própria) e custódia em exchange, não existe opção “certa” para todo mundo, apenas a mais adequada ao seu perfil e nível de experiência
- Acompanhar a evolução regulatória brasileira, já que o país caminha para tratar operações com stablecoins como operações cambiais a partir de 2026
O que observar nas próximas semanas
- Publicação de recortes adicionais do relatório da Chainalysis, por segmento (P2P, DeFi, remessas internacionais)
- Evolução da regulamentação brasileira de stablecoins e seu efeito sobre exchanges locais
- Se a tendência de migração para custódia centralizada se mantém ou se reverte com o avanço regulatório
- Novos dados trimestrais da Receita Federal sobre volume declarado de criptoativos no Brasil
Conclusão
O retrato que emerge desses dois relatórios é o de uma América Latina deixando de tratar cripto como aposta especulativa para tratá-la como infraestrutura financeira paralela, especialmente em países com câmbio instável ou acesso bancário limitado. O Brasil segue na liderança em volume, mas a corrida agora é outra: não é mais sobre quem movimenta mais dinheiro, e sim sobre quem consegue transformar esse volume em uso real, recorrente e regulado. Por enquanto, os dados sugerem que o país ainda tem lição de casa a fazer nesse quesito.
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Fontes consultadas
- Chainalysis, 2026 Latin America Crypto Adoption Report
- CriptoFacil, Brasil lidera entradas, mas México e Venezuela puxam cripto
- BPMoney, Criptomoedas movimentam R$ 283,1 bilhões no Brasil no 1º semestre de 2026 (dados da Receita Federal)
