Se existe uma palavra que está aproximando o mercado financeiro tradicional do universo cripto em 2026, ela é tokenização.
Nesta quarta-feira (16), a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) informou que seus técnicos finalizaram uma proposta para criar um programa piloto capaz de testar emissão, distribuição, negociação, custódia e liquidação de valores mobiliários em redes blockchain. No mesmo momento, no mercado internacional, a Bitget Wallet anunciou acesso a mais de 1.700 ações e ETFs tokenizados.
O movimento é maior do que a simples criação de novos tokens. A chamada tokenização de ativos do mundo real, ou RWA, de Real World Assets, está tentando colocar instrumentos financeiros tradicionais dentro de uma infraestrutura baseada em blockchain. E isso pode mudar a forma como ativos são emitidos, transferidos, negociados e usados em aplicações digitais.
O que é tokenização de ativos, afinal?
Em termos simples, tokenizar um ativo significa criar uma representação digital registrada em uma rede blockchain que corresponde a determinado ativo, direito ou exposição econômica. Dependendo da estrutura utilizada, o token pode representar uma participação em um imóvel, um título, uma cota de fundo, uma ação, uma dívida ou outro instrumento financeiro.
A ideia não é necessariamente substituir o ativo tradicional por uma criptomoeda. O ponto central é utilizar uma rede de registro distribuído para tornar determinadas operações mais programáveis, rastreáveis e potencialmente mais rápidas.
É aí que entra o conceito de RWA. Diferentemente do Bitcoin, que nasceu diretamente no ambiente digital, um RWA procura levar para o blockchain alguma coisa que já existe na economia tradicional.
CVM prepara piloto de tokenização no mercado brasileiro
A notícia mais importante para o Brasil veio da própria CVM. O Grupo de Trabalho de Tokenização da autarquia entregou ao Colegiado uma minuta de resolução que propõe o Programa Piloto DLT CVM.
A proposta prevê testes envolvendo emissão, oferta, distribuição, negociação, escrituração, custódia, depósito centralizado e liquidação de valores mobiliários utilizando redes de tecnologia de registro distribuído, conhecidas pela sigla DLT.
Segundo a CVM, o objetivo é avaliar a viabilidade técnica, operacional e jurídica da tecnologia, além de testar interoperabilidade entre redes e identificar riscos, vulnerabilidades e possíveis lacunas regulatórias. A autarquia afirma que buscou não limitar os testes a uma tecnologia específica, justamente para evitar restringir futuras inovações.
Na prática, isso significa que o Brasil está tratando a tokenização não apenas como um tema de inovação tecnológica, mas como uma possível evolução da própria infraestrutura do mercado de capitais.
Enquanto isso, Wall Street começa a colocar ações no blockchain
No exterior, o movimento acontece em escala crescente. A Bitget Wallet anunciou hoje a integração com a Reality, uma plataforma de emissão de ativos tokenizados, permitindo negociar mais de 1.700 ações e ETFs dos Estados Unidos diretamente por uma carteira de autocustódia.
Segundo a Bitget, os chamados rTokens são lastreados 1:1 pelas ações correspondentes mantidas junto à Alpaca Securities, corretora registrada na FINRA e integrante da SIPC. A empresa afirma ainda que as reservas passam por atestação diária independente. A oferta começa nas redes Arbitrum e Morph e inclui nomes como Nvidia, Tesla, Apple, Amazon, além de ETFs como SPY e QQQ. citeturn0search0
Há um detalhe importante: tokenização não significa que a ação tradicional simplesmente virou uma criptomoeda. O investidor precisa entender exatamente qual direito o token representa, quem mantém o ativo subjacente, qual entidade faz a emissão, em qual jurisdição a operação está estruturada e como funcionam dividendos, resgates e eventos corporativos.
Por que a tokenização de ações está chamando tanta atenção?
| Mercado tradicional | Modelo tokenizado | Possível vantagem |
| Horários definidos de negociação | Ativos podem operar em ambientes on-chain com horários ampliados | Maior flexibilidade |
| Intermediários e sistemas separados | Infraestrutura programável em blockchain | Potencial redução de etapas |
| Liquidação tradicional | Liquidação pode ser integrada à lógica do token | Mais automação |
| Acesso condicionado por infraestrutura financeira | Acesso por carteiras e plataformas digitais, conforme regras aplicáveis | Alcance internacional potencial |
| Ativo financeiro isolado | Token pode ser integrado a aplicações Web3 | Composabilidade |
O mercado de RWA já movimenta bilhões
O fenômeno não está restrito a ações. Dados compilados pela CoinDesk Research indicavam, no início de setembro, que o mercado ativo de RWA já havia ultrapassado US$ 30 bilhões, cerca de seis vezes o nível observado em 2024. No período analisado, ações tokenizadas lideravam as entradas líquidas de capital entre as categorias de RWA, com US$ 480,6 milhões em fluxos de 30 dias.
Entre os ativos tokenizados estão títulos públicos, fundos de mercado monetário, crédito, ouro, commodities e ações. Isso ajuda a entender por que o assunto ganhou espaço: a tokenização pode ser uma ponte entre a liquidez gigantesca do sistema financeiro tradicional e a infraestrutura aberta e programável das redes blockchain.
E o Brasil? A tokenização já está acontecendo por aqui
O movimento brasileiro também merece atenção. Dados publicados pela Cointelegraph Brasil com base no RWA Monitor apontaram, em julho, R$ 9,96 bilhões em captação acumulada e 5.593 ativos tokenizados no país.
Outro dado ajuda a explicar por que stablecoins podem desempenhar um papel importante nessa transformação. Segundo a Receita Federal, aproximadamente R$ 1,58 trilhão em operações de compra e venda de criptoativos foram declarados entre agosto de 2019 e dezembro de 2025. Desse total, cerca de R$ 1,13 trilhão, ou 71,7%, correspondia a stablecoins; nos períodos mais recentes, a participação mensal ficou acima de 80%.
Isso cria uma combinação interessante: blockchain como infraestrutura, ativos tokenizados como representação econômica e stablecoins como uma das possíveis camadas de liquidação. Para o usuário comum, o resultado pode ser uma experiência cada vez mais parecida com usar uma conta financeira digital, mas com ativos e operações funcionando sobre redes blockchain.
Tokenização não é sinônimo de segurança
O crescimento desse mercado também exige cuidado. Um token pode ser tecnicamente sofisticado e ainda assim envolver riscos jurídicos, de custódia, liquidez, contraparte e tecnologia.
Uma das questões mais importantes é descobrir o que exatamente está por trás do token. Ele representa propriedade direta? Um direito contratual? Uma exposição econômica? Existe um ativo real custodiado? Quem fiscaliza o emissor? O investidor recebe dividendos? Pode resgatar o token? Qual é a jurisdição aplicável?
Outro desafio é a liquidez. Um token funcionar 24 horas por dia não significa que haverá compradores e vendedores suficientes 24 horas por dia. A própria análise da Reuters sobre ações digitais destaca que esse mercado ainda é pequeno diante das bolsas tradicionais e enfrenta questões relacionadas a liquidez, direitos dos acionistas, privacidade e fragmentação dos mercados.
O que muda para o investidor brasileiro?
Para quem está começando em criptomoedas, a principal mudança talvez seja conceitual. O mercado cripto está deixando de ser apenas um mercado de moedas digitais. Cada vez mais, blockchain está sendo usado para representar instrumentos que o investidor já conhece no sistema financeiro tradicional.
Isso não significa que todo tokenizado seja melhor, mais barato ou mais seguro. Significa que existe uma nova camada tecnológica disputando espaço na infraestrutura financeira.
Para o brasileiro, o avanço da tokenização pode trazer novas formas de acesso a ativos internacionais, mas também aumenta a importância de compreender regras de emissão, tributação, custódia e proteção ao investidor. A existência de um token disponível em uma carteira digital não elimina essas perguntas.
O que observar nos próximos meses
| Tendência | Sinal para acompanhar | Por que importa |
| CVM | Evolução do Programa Piloto DLT | Pode definir caminhos para testes regulados de valores mobiliários tokenizados no Brasil. |
| Ações tokenizadas | Novas emissões e integrações com bolsas/corretoras | Mostram se a tecnologia consegue sair do nicho cripto. |
| RWA | Crescimento de títulos, fundos, crédito e imóveis on-chain | Amplia a utilidade econômica da blockchain. |
| Stablecoins | Uso como meio de liquidação | Podem conectar pagamentos, negociação e ativos tokenizados. |
| Infraestrutura | Interoperabilidade entre blockchains | Pode reduzir a fragmentação do mercado. |
A próxima fase da Web3 pode ser menos sobre criar moedas e mais sobre conectar mercados
A grande história por trás da tokenização não é simplesmente o lançamento de mais um tipo de ativo digital. É a tentativa de reconstruir partes da infraestrutura financeira usando blockchain.
A decisão da CVM de preparar um ambiente piloto no Brasil, somada ao avanço internacional de ações e ETFs tokenizados, mostra que o tema está passando da fase de conceito para a fase de experimentação institucional.
Para o usuário, isso pode significar acesso a uma variedade maior de ativos dentro de ambientes digitais. Para empresas e instituições financeiras, pode representar uma nova infraestrutura de emissão, distribuição e liquidação. E para o ecossistema Web3, talvez seja uma das pontes mais importantes entre a economia tradicional e a economia on-chain.
O próximo passo, porém, será provar que essa tecnologia consegue entregar algo além do entusiasmo inicial: segurança jurídica, liquidez, transparência, proteção ao investidor e eficiência. É justamente nessa disputa que a tokenização deverá ser acompanhada de perto.
Nota editorial: Conteúdo jornalístico e informativo. Ativos digitais e tokenizados envolvem riscos de mercado, liquidez, tecnologia, custódia e regulação. A disponibilidade de um ativo em uma plataforma não constitui recomendação de investimento.
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