A Circle, empresa responsável pela stablecoin USDC, planeja ampliar sua presença em aproximadamente 40 mercados emergentes e em desenvolvimento. A informação foi divulgada pelo presidente-executivo da companhia, Jeremy Allaire, em entrevista à Reuters durante reuniões do Fundo Monetário Internacional e do Banco Mundial, realizadas em Bangkok. A estratégia acompanha uma mudança importante no setor: as stablecoins estão deixando de ser usadas apenas por investidores e corretoras e ganhando espaço como ferramenta para pagamentos, transferências internacionais e serviços digitais.
Para o público brasileiro, a notícia tem relevância especial. A Receita Federal informou em julho que as stablecoins responderam por cerca de 71,7% do volume de compra e venda dos principais criptoativos declarado entre agosto de 2019 e dezembro de 2025 — aproximadamente R$ 1,13 trilhão de um total de R$ 1,58 trilhão. O dado não significa que todo esse montante tenha sido usado para pagamentos, mas mostra que os ativos digitais atrelados a moedas tradicionais já ocupam uma posição central no mercado nacional.
A expansão anunciada pela Circle ainda não veio acompanhada de uma lista pública dos 40 países nem de um cronograma detalhado para cada entrada. Portanto, não é correto afirmar que o Brasil receberá um novo serviço específico ou que haverá mudanças imediatas para quem já utiliza USDC. O sinal mais importante é estratégico: a empresa quer ampliar o alcance do dólar digital e disputar espaço em regiões onde consumidores e empresas buscam formas mais rápidas de movimentar dinheiro pela internet.
O que é o USDC e por que a Circle quer crescer?
O USDC é uma stablecoin vinculada ao dólar americano. Em condições normais, sua proposta é manter um valor próximo de US$ 1 por unidade. Diferentemente de criptomoedas como Bitcoin, cujo preço pode oscilar bastante em curtos períodos, uma stablecoin busca reduzir a variação em relação à moeda de referência. Isso não elimina todos os riscos: o usuário continua exposto a questões como a qualidade das reservas, a operação do emissor, a plataforma utilizada, a rede blockchain e a possibilidade de bloqueios ou problemas de liquidez.
A Circle disputa esse mercado com a Tether, emissora do USDT. Segundo a Reuters, o USDC representava cerca de 25% do mercado global de stablecoins, enquanto o USDT tinha participação próxima de 60% na data da reportagem. A circulação do USDC chegou a US$ 73,3 bilhões no segundo trimestre de 2026, uma alta de 19% em relação ao mesmo período do ano anterior, segundo os números citados pela agência.
O plano de chegar a mais mercados pode ampliar a disponibilidade do USDC em serviços financeiros, aplicativos e plataformas locais. A Circle também anunciou uma aquisição de US$ 400 milhões da Tazapay, empresa de infraestrutura para pagamentos internacionais, e recebeu um investimento estratégico de US$ 100 milhões da Binance. A aquisição da Tazapay ainda depende de aprovações e tem conclusão esperada para 2027, conforme as informações divulgadas.
Por que essa notícia importa para o Brasil?
O Brasil já tem familiaridade com pagamentos digitais, fintechs e transferências rápidas. O próximo desafio é conectar essa experiência a operações internacionais, nas quais ainda podem existir custos de câmbio, horários bancários, intermediários e prazos de liquidação. Stablecoins podem ser úteis em alguns desses fluxos, desde que exista uma estrutura confiável para conversão, custódia, conformidade regulatória e atendimento ao cliente.
Uma pesquisa publicada pela Ripple em 14 de outubro, baseada em entrevistas com 160 líderes de finanças no Brasil e no México, apontou que 69% dos participantes da região já utilizam stablecoins para pagamentos ou planejam fazê-lo nos próximos dois anos. O levantamento é uma pesquisa setorial encomendada por uma empresa que atua no próprio mercado, e não um censo de todas as empresas brasileiras. Ainda assim, o resultado reforça que o uso corporativo de ativos digitais está na agenda de bancos, fintechs e empresas.
Para pequenas empresas, freelancers e profissionais que recebem do exterior, a promessa é reduzir atritos em pagamentos transfronteiriços. Mas uma stablecoin não é automaticamente mais barata do que uma transferência bancária ou um serviço de remessas. É necessário comparar taxa de compra e venda, spread cambial, tarifas da rede, custo de saque para reais e eventuais encargos fiscais. A economia só existe quando o custo total da operação é realmente menor.
Stablecoins, IA e pagamentos entre máquinas
Outro elemento da estratégia é a convergência entre blockchain e inteligência artificial. Allaire disse à Reuters que transações entre agentes de IA já contribuem para o uso do USDC, incluindo pagamentos de frações de centavo quando softwares pesquisam informações na internet ou coletam dados em tempo real.
O conceito pode parecer distante, mas é simples: um programa de IA poderia contratar acesso a uma base de dados, consumir recursos de computação ou pagar por uma chamada de API de acordo com o uso. Em vez de exigir que uma pessoa aprove cada pequena cobrança, regras programadas poderiam iniciar e liquidar pagamentos automaticamente. Para esse modelo funcionar em escala, porém, será necessário resolver questões de segurança, identidade, limites de gastos, prevenção a fraudes e responsabilidade por transações indevidas.
A automação também cria riscos. Um agente mal configurado pode gastar mais do que deveria, interagir com um serviço fraudulento ou ser explorado por atacantes. A própria Circle alertou, na reportagem, para o aumento das vulnerabilidades de segurança associadas à expansão da IA. Em outras palavras, pagamentos autônomos podem ser uma oportunidade de negócio, mas não dispensam supervisão, controles e auditoria.
O que a expansão pode significar — e o que ainda não significa
| Tema | Oportunidade potencial | Ponto de atenção |
| Pagamentos internacionais | Liquidação digital e operação contínua, inclusive fora do horário bancário. | Taxas de conversão, rede, saque e regras locais podem reduzir a economia. |
| Empresas e freelancers | Receber ou enviar valores digitais em mercados atendidos por provedores compatíveis. | A disponibilidade depende de parceiros, serviços e exigências regulatórias. |
| Aplicações de IA | Micropagamentos automatizados por dados, computação e serviços digitais. | Erros de software, ataques e autorizações excessivas podem gerar perdas. |
| Usuários de varejo | Mais opções de acesso a dólar digital em plataformas e carteiras. | USDC não é depósito bancário nem investimento com retorno garantido. |
USDC ou USDT: o investidor iniciante precisa escolher?
Não necessariamente. USDC e USDT são stablecoins atreladas ao dólar, mas são emitidas por empresas diferentes e podem apresentar diferenças de liquidez, disponibilidade nas corretoras, redes compatíveis e transparência sobre reservas. Para escolher, o usuário deve considerar onde pretende usar o ativo, como pretende convertê-lo em reais e qual nível de informação consegue obter sobre o emissor e a plataforma.
Também é importante distinguir stablecoin de conta em dólar. Ter USDC não equivale a possuir uma conta bancária americana, e a cotação próxima de US$ 1 não elimina riscos operacionais ou de mercado. O preço em reais pode subir ou cair conforme a cotação do dólar, mesmo que o valor do token permaneça próximo de um dólar. O usuário também pode perder acesso aos recursos se perder suas chaves privadas ou cair em um golpe.
Antes de transferir valores, confira o endereço, a rede blockchain selecionada e a compatibilidade da carteira de destino. Uma transferência enviada pela rede errada pode ser difícil ou impossível de recuperar. Desconfie ainda de promessas de rendimento garantido, perfis que oferecem suporte por mensagem privada e sites que imitam corretoras conhecidas.
O que acompanhar nas próximas semanas
A primeira questão é saber quais mercados serão priorizados e quando os serviços estarão disponíveis. A Circle não detalhou publicamente todos os países no anúncio noticiado pela Reuters. Também vale acompanhar o fechamento da aquisição da Tazapay, a adesão de empresas de pagamento e a evolução do uso real do USDC, para além de anúncios e projetos-piloto.
No Brasil, a evolução regulatória e as exigências para empresas que prestam serviços com ativos virtuais serão decisivas. Maior clareza pode favorecer operações mais estruturadas, mas também aumenta as obrigações de conformidade para os participantes do mercado. Para o consumidor, o essencial é verificar se a plataforma está regularizada quando aplicável, entender as tarifas e manter registros das operações para cumprir suas obrigações fiscais.
Há ainda uma questão de concorrência: o USDT segue como o maior ativo do segmento por participação de mercado, enquanto bancos e empresas de pagamento estudam suas próprias soluções digitais. A expansão da Circle, portanto, não garante liderança nem adoção automática. O resultado dependerá da confiança dos usuários, da liquidez, da facilidade de uso e da capacidade de transformar a tecnologia em serviços que resolvam problemas reais.
Conclusão: a disputa pelas stablecoins está entrando em uma nova fase
A intenção da Circle de avançar em cerca de 40 mercados emergentes mostra que a próxima etapa da competição cripto pode ser menos sobre criar um novo token e mais sobre integrar o dólar digital a pagamentos, empresas e softwares. Para o Brasil, onde as stablecoins já representam uma parcela expressiva das operações declaradas com criptoativos, o tema merece atenção — sem confundir crescimento do setor com garantia de segurança ou retorno financeiro.
O principal indicador a observar não será apenas quantos países a Circle anunciará, mas quantas empresas e pessoas conseguirão usar esses serviços com custos transparentes, proteção adequada e conformidade com as regras locais. Até lá, a expansão é um sinal relevante de mercado, não uma promessa de benefício imediato para todo investidor brasileiro.
Fontes consultadas
- Reuters (16/10/2026) — Stablecoin issuer Circle to push into 40 new markets, CEO says. https://www.reuters.com/technology/stablecoin-issuer-circle-push-into-40-new-markets-ceo-says-2026-10-16/
- Receita Federal (23/07/2026) — Stablecoins já respondem por cerca de 80% do volume declarado de criptoativos no Brasil. https://www.gov.br/receitafederal/pt-br/assuntos/noticias/2026/julho/stablecoins-ja-respondem-por-cerca-de-80-do-volume-declarado-de-criptoativos-no-brasil
- Ripple (14/10/2026) — Stablecoins in Latin America: Why Mexico and Brazil Lead. https://ripple.com/insights/stablecoins-in-latin-america-mexico-and-brazil/
- Kaleidos (07/10/2026) — Busca por cripto no Brasil em cinco anos; análise de termos no Google Trends. https://kaleidos.com.br/recursos/busca-por-cripto-no-brasil
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